Recentemente, fui convidada a ministrar aulas em um curso realizado através da parceria entre o Movimento Mulheres Negras Decidem e O Não Internacionalista para discutir acerca dos movimentos e pensamentos de mulheres negras ao longo do processo histórico. Nesse caminho, duas correntes de pensamento se destacam: a epistemologia feminista e o Mulherismo Africana.

Para iniciar a conversa, a partir da realidade brasileira, trago um trecho escrito por Sueli Carneiro, onde ela afirma que:

“No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas consequências”. (2011)

Seguindo a lógica do pensamento de Sueli Carneiro, podemos analisar que ao longo do tempo sofremos um duro epistemicídio, onde as histórias de mulheres negras foram silenciadas. Porém, seguindo o sentido inverso projetado pela colonialidade, conseguimos vislumbrar que por trás de atitudes que podem parecer um comportamento conformado de mulheres afro-americanas, amefricanas e ameríndias, existem atos de resistência, que, de forma organizada ou individual e anônima, foram deixados por aquelas que vieram antes de nós (Davis 1981, 1989; Terborg-Penn 1986; Hine 1989; Barnett 1993; Gonzalez 2020; Nascimento, 1989).

Desse modo, mulheres afro-americanas, ameríndias e amefricanas não podem ser analisadas como vítimas indefesas, mas como mulheres que resistiram às variadas opressões dotadas de muita força de vontade e seguindo caminhos diversos daqueles trilhados por mulheres brancas. Seguindo o pensamento de Nah Dove (1998), “o patriarcado europeu está na base das desigualdades sociais do Ocidente que afetam as mulheres e os homens africanos de forma igualmente perversa”.

 

Ao longo do processo histórico é possível verificar atos individuais de resistência que parece sugerir a existência de uma consciência coletiva e característica das mulheres negras. Um exemplo a ser citado é o da ativista afro-americana anti-escravagista, Maria Stewart, que em 1831, aconselhou as que ela denominava de “filhas da África”: “Acordem! Levantem! Não durmam mais, nem fiquem em estado de torpor, mas diferenciem-se. Mostrem para o mundo que vocês são dotadas de características nobres e elevadas” (Richardson 1987, 141).

Ao mesmo tempo, no Brasil, mulheres negras escravizadas utilizavam-se da cozinha para salvar irmãos pretos fugitivos das senzalas. Usavam suas mesas de quitutes e doces, para observar o movimento nas ruas, levando informações importantes, se organizando em quilombos. Liderando ataques ou fazendo a defesa do seu povo. Na resistência, nos comunica Patrícia Hill Collins (2019), até o silêncio foi e é usado.

Audre Lorde (2019) nos instiga a pensar que em algum lugar, no limiar da consciência, existe o que ela chamou de uma norma mítica, por meio da qual cada um de nós sabe, dentro do coração, que “esse não sou eu”. Isso significa não ser lido como branco, magro, macho, jovem, heterossexual, cristão e financeiramente estável.

É possível ainda percebermos que pensadoras como Lélia Gonzalez e Clenora Hudson-Weems, ambas escrevendo na década de 1990, tenham compreendido, mesmo que em realidades diferentes, mas afetadas pela colonização, as opressões e os horrores deixados pelo escravismo, que dentro do movimento de mulheres, feministas brancas tenderam a concentrar seus esforços nas opressões que as afetavam apenas como mulheres e deixaram de lado os marcadores de raça, sexualidade, classe, geração e de deficiência, mas sobretudo, ignoraram a raça como base da nossa sociedade.

De fato, perpetua-se uma falsa aparência de homogeneidade feminina sob a aparência da sororidade, a irmandade entre as mulheres, que de fato não existe. O que une as mulheres negras é a cumplicidade existente entre elas, compartilhada a partir da dor que só mulheres negras reconhecem, o que Vilma Piedade (2017) denominou de dororidade.

Diante da realidade construída em cima de vidas negras, o mulherismo africana, pensamento cunhado por Clenora Hudson-Weems no final da década de 1980, defende que mulheres negras devem buscar em um reencontro com sua ancestralidade africana uma verdadeira teoria matriarcal e afrocentrada, que seguindo suas próprias vivências e experiências, dará conta das demandas apresentadas não apenas por mulheres negras, mas pela população negra. Entende-se que as violências impetradas contra o povo preto passam em primeiro lugar pelas características físicas que esses corpos possuem: a cor, o formato do cabelo, o biotipo e os traços negróides que o povo africano carrega a partir da herança racial.

E ainda que o sexo biológico una, em alguma medida, corpos de mulheres brancas às mulheres amefricanas, afro-americanas e ameríndias, estas mulheres estão muito mais próximas dos homens pretos e indígenas que das mulheres brancas no que diz respeito a compreender as dores provocadas pelo racismo.

Desta forma, mulheres negras, possuem um lugar central no pensar e gestar a sua comunidade, empreendendo suas lutas, não apenas em favor de outras mulheres negras, mas potencializando e protegendo a sua comunidade. Talvez, seja bom deixar evidenciado que nós, mulheres pretas, não somos mulheres de homens, ao contrário do que prega a cosmovisão e a biológica ocidental (Oyeronke Oyewumi, 2021), somos mulheres de um povo: o povo africano do Continente ou em diáspora.

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