Na Pequena África, a resistência se ergue,
Nos quilombos, o orgulho não se entrega.
Das palmeiras verdes, o samba se faz,
É o eco da luta, é o grito de paz!
(Samba enredo, 2025, Mangueira)
O carnaval é uma das maiores celebrações anuais no Brasil e, mesmo com o passar do tempo, se mantém em destaque, movimentando a economia, contribuindo para o turismo, além de ser uma expressiva manifestação cultural negra no País. A partir destes aspectos, o presente texto tem como objetivo refletir acerca da cultura brasileira, a ancestralidade e a importante atuação das mulheres negras nesse cenário.
O Carnaval é uma festa de origem pagã europeia, marcada por características únicas. Originalmente, as celebrações aconteciam dentro de casa, mas, com o tempo, foram levadas para as ruas. Esse festejo simbolizava a liberdade. Mais tarde, no século XVII, o Carnaval chegou ao Brasil por meio dos colonizadores.
Inicialmente no Brasil, a festividade foi chamada de Entrudo, termo derivado do latim introitus, que significa “começo”, pois o carnaval marcava o início da Quaresma para a Igreja Católica. Os africanos escravizados no Brasil celebravam esse período de forma espontânea, jogando farinha, trigo e polvilho uns nos outros, enquanto a elite promovia bailes em clubes e teatros. Lelia demonstra em sua obra Festas Populares, que com o tempo, a festa das classes populares começou a ser reprimida, mas, apesar das restrições, a população encontrou maneiras de adaptar suas celebrações às regras impostas pela polícia. Esse contraste entre o Carnaval das elites e o das classes mais pobres persiste até hoje, refletindo a divisão social do país.
À medida que a festa se popularizou, ela assumiu novas formas e se espalhou por diferentes regiões. Quando chegou aos segmentos negros da sociedade, ganhou ainda mais significados, tornando-se uma forma de expressão cultural. No entanto, mesmo com essas transformações, o Carnaval manteve sua essência inicial, como aponta a antropóloga Lélia Gonzalez (1983), ao analisar a influência dos escravizados na construção do Carnaval brasileiro.
A participação dos escravos permitiu-lhe atingir formas mais elaboradas, sem que, no entanto, ele perdesse seus objetivos: molhar, sujar e perseguir as pessoas. Suas marcas ainda se fazem em algumas regiões. O mela-mela do Recife é um exemplo.
A partir da fala de Lélia, podemos perceber que as manifestações de Carnaval são diversas e variam conforme quem as realiza e de que forma. Elas apresentam diferenças regionais e também contrastam com o que eram no passado e como se apresentam no presente. Além disso, essas manifestações se adaptam de acordo com a cultura em que estão inseridas.
É comum escutar em debates que a cultura é dinâmica, entretanto, é necessário uma análise profunda acerca dessa afirmação, para que se desvele qual o sentido de dinamicidade que a cultura segue. Partindo disso, é possível notar que a cultura é uma identidade social que assume diferentes características e manifestações, a depender do tempo e espaço em que se situa, logo, tem-se um ponto acerca da dinamicidade: define-se pelo que é construído, manifestado e mantido de acordo com o território presente. Como destaca HALL (1997, p.123),
A cultura não é algo que existe em si mesma, como uma “entidade”, mas é sempre mediada e transformada em relação às relações sociais de poder e ao contexto histórico específico. A cultura é, portanto, um campo de significados que está sempre em fluxo, sendo constantemente recriada, negociada e disputada.
A contribuição dos povos africanos e indígenas na formação social, econômica e, principalmente, cultural brasileira é folclorizada, invisibilizada e criminalizada, isto porque a cultura é um elemento central de disputa nas relações de poder. Desta forma, o discurso dominante, assumido e declarado pela branquitude nomeia como “cultura afro-brasileira” o que de fato não é apenas uma “fatia” daquilo que o Brasil é, mas sim, o seu todo, como explica GONZALEZ ( 2017, p.95)
A cultura afro-brasileira, longe de ser um legado fixo e imutável, é um campo de disputas, transformações e reinvenções, onde a resistência e a criatividade dos negros no Brasil sempre se manifestam de formas novas, respondendo aos desafios de cada momento histórico. A cultura negra não se limita a um passado, mas vive e se recria continuamente no presente, marcada pela luta contra o racismo e a opressão.
A cultura afro-brasileira é fundamentalmente marcada pela ancestralidade, que não é apenas sobre o passado, mas sim, o movimento que se faz no presente e que garantirá o futuro, utilizando de uma “metodologia” que não se perde, sempre renova e podemos chamá-la de memória. Nessa perspectiva, “(…) a memória, a gente considera como o não saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção”. (Gonzalez, 2017, p.40). Através da oralidade, a memória destitui discursos hegemônicos, considerados legítimos e intocáveis, resgatando histórias apagadas, silenciadas e criminalizadas. A memória é resistência que grita ao mundo aquilo que as universidades, os livros e as histórias oficiais compartilhadas pelas instituições não querem que as pessoas acessem.
Apesar da pressão capitalista e da forte tendência à apropriação, compreendemos as escolas de samba como um espaço educativo, pois são elas que, ao longo dos anos, criam um espaço comunitário desenvolvendo um importante trabalho de resgate e valorização da história africana e afro-brasileira. É possível observar na organização, composições de sambas-enredos e nos desfiles em geral. A cada ano, as escolas apresentam nomes importantes da luta contra a escravidão, homenagem as personalidades negras, as religiões de matrizes africanas, bem como elementos importantes de grupos etnicos existentes no cotinente africano.
O conhecimento não deve ser entendido apenas como aquilo que é produzido dentro dos muros institucionais, categorizado e com uma falsa neutralidade, se intitulando ciência, a partir de uma série de normas estabelecidas, excluindo a pluralidade de saberes existentes, que podem ser compartilhados de diferentes formas e movimentos, porém ainda que se negue, “ (…) o que no corpo e na voz se repete também é uma episteme” ( MARTINS, 2008). É assim que a cultura do povo preto tem se mantido viva, através do corpo, da voz, da existência integral e coletiva, principalmente de mulheres negras.
Contextualizando as perspectivas sobre o papel da mulher no carnaval brasileiro
Apesar de a festa representar liberdade, esse conceito não se estendia às mulheres, que inicialmente apenas assistiam às celebrações. Com o tempo, sua participação, que se resumia apenas a sexualização de seus corpos, deixou de ser tão restrita e erotizada, e assim começaram a ganhar mais voz nesse meio. No Brasil, a presença feminina tornou-se mais significativa após a abolição da escravatura. No entanto, apesar do fim da escravidão, os ex-escravizados foram abandonados sem qualquer suporte ou legislação que garantisse condições dignas de vida.
Nesse contexto, surgiram mulheres conhecidas como “tias”, figuras fundamentais que, com amor e solidariedade, ajudavam aqueles que mais precisavam.
Naquele tempo (1910) não havia lugar para se divertir. Não. havia cinema.
Havia só festa familiar. Nós os da raça (negro) já sabíamos de cor onde se
reunir. Havia sempre festa, com baile e até com assunto religioso, em
numerosas famílias. Lá os crioulos se reuniam, comiam, sambavam, se
divertiam, namoravam e casavam ou então se amigavam! Mas de qualquer jeito
arranjavam companheira. Havia muitas casas (centros) onde os negros se
reuniam. As principais, que eu me lembro eram de Perciliana, mãe do João da
Bahia, da Amélia do Aragão, mãe do Donga e da tia Ciata. (BORGES, 1971 apud
VELLOSO, 1990, p. 7).
O termo “tia” ia muito além dos laços sanguíneos; essas mulheres se tornaram referências em suas comunidades, atuando como líderes religiosas e importantes representantes de movimentos sociais de ocupação e resistência. Nos espaços que elas e suas comunidades ocupavam, preservavam e produziam cultura, garantindo que suas tradições não se perdessem. Além disso, as tias desempenhavam um papel essencial na organização de festas e na reunião de pessoas, especialmente por meio dos candomblés, fortalecendo a identidade cultural e a espiritualidade de suas comunidades.
As tias, que também são chamadas de “Tias do Samba” ocupavam um lugar de destaque e autoridade na história desse gênero musical. Muitas delas vinham do Recôncavo Baiano, trazendo consigo as tradições das religiões afro-brasileiras e o samba de roda. Um dos maiores exemplos dessa influência é Tia Ciata, uma figura fundamental para o surgimento do samba carioca.Tia Ciata deixou a Bahia e se estabeleceu no Rio de Janeiro devido à perseguição religiosa. Lá, encontrou outras mulheres que, como ela, preservavam e disseminavam as tradições afro-brasileiras. Sua casa tornou-se um verdadeiro ponto de encontro e acolhimento para aqueles que precisavam de proteção.
A fama de Tia Ciata cresceu quando ela ajudou a curar uma ferida na perna do então presidente Venceslau Brás, que os médicos já consideravam incurável. Em reconhecimento, sua casa passou a ser protegida, tornando-se um refúgio seguro para diversos grupos marginalizados, como capoeiristas, judeus, muçulmanos e outros perseguidos da época. Além de oferecer abrigo, sua casa também foi palco para encontros musicais que contribuíram diretamente para o desenvolvimento do samba como o conhecemos hoje.
Atualmente, quando falamos sobre mulheres e Carnaval, a visão das “Tias” muitas vezes é deixada de lado. No entanto, é possível adotar uma perspectiva diferente, especialmente no que diz respeito à mulher negra.
O Carnaval, visto como a festa da liberdade, da bebida, dos blocos, samba e de tantas outras coisas, é um momento onde as mulheres que desfilam se tornam as verdadeiras estrelas. É quando as Rainhas de Bateria se preparam para o grande espetáculo, e as mulheres negras ganham as avenidas para mostrar sua beleza e seu samba — um samba que, claro, está enraizado ao longo de suas vidas. Elas trabalham incessantemente, enfrentando o racismo e a violência, mas durante o Carnaval, são exaltadas, transformadas na “Globeleza”, a grande rainha da festa.
Como aponta Lélia Gonzalez, o Carnaval é um momento em que se defende a falsa ideia da democracia racial, em que o racismo é dissimuladamente ocultado e a erotização da mulher negra é colocada em evidência. Diversas marchinhas evidenciam o racismo ainda presente nos desfiles de carnaval. Há uma dualidade entre o desejo e a discriminação racial, que perpetua a violência simbólica contra a mulher negra. Mesmo sendo altamente desejada, ela continua sendo alvo de preconceito, sofrendo violências indiretas que reforçam estigmas e desigualdades. Aqui um grande exemplo no trecho da música “O teu cabelo não nega” (1929) dos Irmãos Valença.
“O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, eu quero o teu amor”
Se antes ela era invisível, maltratada e desprezada, agora, durante o desfile, ela é desejada e aplaudida. Porém, após a festa, seu corpo, antes celebrado, é novamente objetificado e sexualizado, ao fim da festa, quem a aplaudiu nas avenidas volta a propagar o racismo,e esse mesmo corpo serve apenas para o uso doméstico e para o trabalho braçal.. E essa mulher volta ao seu posto. Como afirma Gonzalez (2017):
Como todo mito, o da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra. Numa primeira aproximação, constatamos que exerce sua violência simbólica de maneira especial sobre a mulher negra, pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher, no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica. É por aí que a culpabilidade engendrada pelo seu endeusamento se exerce com fortes cargas de agressividade. É por aí, também, que se constata que os termos ‘mulata’ e ‘doméstica’ são atribuições de um mesmo sujeito.
Lélia Gonzalez, por meio dessa reflexão, destaca como a dualidade está presente na forma como a mulher negra é percebida. A autora aponta que o racismo muitas vezes se esconde por trás da aparente admiração que as pessoas dizem ter por elas. Além disso, Gonzalez ressalta que, mesmo sob as máscaras de “elogios”, há comentários carregados de racismo e misoginia,utilizados como um mecanismo para sustentar a ideia de uma suposta democracia racial.
Carnaval: uma celebração de resistência
O Carnaval, além de ser uma grande festa, carrega consigo um forte simbolismo de resistência. Esse aspecto se reflete nos desfiles das escolas de samba que, frequentemente, trazem enredos que abordam a exclusão social de diversas comunidades. Exemplos disso são o enredo da Paraíso do Tuiuti, que conta a história de Xica Manicongo, a primeira mulher trans documentada no Brasil, e o da Unidos da Viradouro, que celebra o culto à Jurema Sagrada e aos Reis Malunguinho. A Unidos de Padre Miguel, por sua vez, homenageia o terreiro de Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo em atividade no Brasil.
Além das escolas de samba, os blocos de rua também são um importante exemplo de resistência cultural, como o bloco Ilê Aiyê, fundado durante a ditadura militar e considerado o primeiro bloco afro-brasileiro do País. Dessa forma, o Carnaval se firma como uma das maiores festas populares do Brasil, marcada pela presença do samba, cujos ritmos têm forte influência das religiões de matriz africana, e pelo som dos tambores, atabaques e agogôs. Mais do que sua alegria contagiante, o Carnaval é um espaço de manifestação cultural que também se configura como uma forma de resistência contra o racismo. Como ressalta Lélia Gonzalez (2024):
Pelo exposto, constatamos que é dessa extraordinária e dinâmica interação de anônimos segmentos populares que o Carnaval retira sua legitimidade como maior festa popular do Brasil. Pois é criando e recriando novos folguedos, ao mesmo tempo em que abandona outros, num atento acompanhamento das mudanças da sociedade, que esses segmentos o sustentam e o mantêm como um complexo vivo e marcante de toda nossa cultura.
Carnaval surge da interação dinâmica e constante entre diferentes grupos populares. Ele se mantém vivo porque está sempre se reinventando: novas formas de celebração surgem enquanto outras são deixadas para trás, refletindo as transformações da sociedade. Assim, o Carnaval não é algo fixo, mas sim um fenômeno cultural em constante evolução, sustentado pelo próprio povo e representando de forma marcante a cultura brasileira.
Considerações finais
A cultura brasileira, a representação da mulher negra e o Carnaval revela uma relação histórica e social que merece ser constantemente analisada. O Carnaval, enquanto uma das maiores expressões culturais, reflete tanto avanços quanto desafios na construção das nossas identidades e na valorização da diversidade.
A mulher negra, figura central nessa manifestação, carrega em sua trajetória a herança da resistência e da ancestralidade. No entanto, sua imagem ainda é atravessada por estereótipos e desigualdades, sendo necessário ampliar debates que garantam um espaço de maior reconhecimento à sua contribuição cultural. Por outro lado, o Carnaval também se configura como um espaço de representatividade, onde a mulher negra pode afirmar sua identidade, celebrar suas raízes e reivindicar novas narrativas.
Compreender essa relação significa reconhecer o Carnaval como um espelho da sociedade brasileira, onde as contradições e as potências das nossas culturas se manifestam. Assim, cabe à sociedade ampliar a valorização da mulher negra não apenas esteticamente, mas como protagonista ativa da história e da cultura do Brasil.
Texto produzido e enviado por Quezia Dourado e Larissa Daniele
Revisão por Ligia Alves
REFERÊNCIAS
HALL, Stuart. Cultura, mídia e identidade. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1997.
GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afrolatino-Americano. São Paulo: Editora Selo Negro, 2017.
GONZALEZ, Lélia. Festas Populares no Brasil.1.ed.São Paulo:Editora Boitempo, 2024.
MARTINS, Leda Maria. Performance do tempo espiralado. São Paulo: Editora Cobogó, 2008
Mestre Tita, Arlindo Cruz, Péricles e outros compositores. “À Flor da Terra – No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões”. Carnaval 2025. Escola de samba Estação Primeira de Mangueira.
VELLOSO, Mônica Pimenta. As Tias Baianas Tomam Conta do Pedaço: Espaço e Identidade Cultural no Rio de Janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, 1990.